Se temos dois olhos, porque não vemos tudo a dobrar?

Estava eu sossegado à beira da piscina, quando oiço um miúdo a fazer uma pergunta aos pais. Os pais encolheram os ombros, riram-se, apontaram para a piscina, como que a dizer «não queres ir dar um mergulho?» O miúdo não desarmou. Queria saber por que razão, se temos dois olhos, não vemos tudo a dobrar. A mim, ali a olhar para a piscina como que desatento, apetecia-me pôr o dedo no ar e dizer «eu sei, eu sei!». Mas, não, não me armei em Hermione. Deixei o miúdo feliz por ter conseguido atrapalhar os pais. Ora, na verdade, nós vemos a dobrar! Basta entortar um pouco os olhos para perceber isso mesmo. O que se passa é que o nosso cérebro pega nas duas imagens separadas e cria uma só imagem a três dimensões. Se fecharmos um dos olhos, a imagem passa a duas dimensões… Claro que não vale a pena fazer isso agora, porque o cérebro consegue reconstruir as três dimensões em cenários que já conhece. Mas se alguém puser uma venda na cabeça do meu caro leitor e o largar numa cidade desconhecida e se, quando por fim alguém lhe tirar a venda, abrir só um dos olhos — aí sim, terá à sua frente o mundo a duas dimensões. Mas, vá por mim, não faça isso.

Convite: Lançamento de «A Baleia Que Engoliu Um Espanhol»

Tenho o prazer de convidar para o lançamento do meu livro A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra e Paz). Será na quarta-feira, dia 5, às 18h, na Fnac Vasco da Gama. O livro será apresentado por Fernando Alvim.

O evento está também no Facebook.

Convido ainda para seguir a página do livro no Facebook.

A BALEIA

Convite – Lançamento

Tenho o prazer de convidar para o lançamento do livro A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa. É já esta quarta-feira, na Bertrand de Picoas, às 18h30.

O evento está também no Facebook.

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A EMEL nos caminhos da língua portuguesa 

Ontem andei num rodopio para conseguir ficar despachado e ir falar um pouco sobre a língua portuguesa. A entrevista era às 19. Ora, fiz contas e fui para o carro quando faltava menos de uma hora, para ir pôr a Zélia a casa e então ir para os estúdios. Era tempo de sobra — não fosse dar-se o caso de o carro estar horrivelmente engalanado com fitas amarelas e um autocolante ameaçador no vidro. Ora, eu tinha pago o estacionamento — mas naquele momento percebi que o senhor da EMEL fez bem em bloquear o carro. Porquê? Vejam bem o retorcido da situação: o meu carro está na oficina (por causa dum javali que encontrou o meu pára-choque há uns tempos). Estava a usar um carro emprestado. Estacionei e paguei o parquímetro usando a aplicação da EMEL para telefones. Só que… na verdade esqueci-me que na aplicação a matrícula registada é a do carro que está na oficina. Resultado? Bloqueio. Ora, isto é muito giro mas as entrevistas em directo não esperam — e lá ficou a minha mulher à espera da irmã para ter alguém com carta para receber os senhores e desbloquear o veículo. O que vale é que o funcionário da EMEL foi simpático (contaram-me elas) e até aconselhou a mandar uma explicação para que a EMEL devolvesse o dinheiro da multa. Afinal eu paguei o estacionamento… Porque conto tudo isto? Confesso: é só para poder dizer que, apesar de tudo, cheguei a tempo e horas e lá estive um bom bocado numa conversa bem animada na Prova Oral da Antena 3 para falarmos de dois livros sobre a língua. (Se quiserem, também podem recordar uma outra conversa, em que também falámos dos segredos da língua, já lá vão alguns meses.)

Como irritar alguém que está a ler?

sidewalk-1842527_1280(1) Perguntar «Qual é a história?». Isto é especialmente irritante quando estamos a ler um livro de ciência («A história d’O Gene Egoísta? Hum, havia um gene. Era um bocado egoísta.»). Mas mesmo no caso dum romance, perguntar «qual é a história» é mostrar que não percebemos assim tão bem o que é um romance. Talvez esteja a ser mau — mas, quando estou a ler, sossegado, e de repente tenho de resumir um livro inteiro, fico um pouco irritado, a olhar para o livro e a olhar para a pessoa que me fez tal pergunta. Estraga-me um bocado a leitura, confesso-vos. Pensem n’Os Maias. «Hum, há um rapaz que encontra uma mulher e depois descobre que…» Isto não são Os Maias! É uma má telenovela! Querem mesmo mostrar interesse no livro que alguém está a ler? Peçam, num intervalo da leitura, para pegar no livro. Folheiem, olhem para a capa, reparem nas badanas. Se o leitor quiser falar do livro, garanto-vos que vai aproveitar esse momento para conversar. Mas a verdade é que, muitas vezes, quem lê não quer falar do livro: quer ler, ponto final.

Como convencer alguém de que somos humanos?

O meu irmão Diogo andou a bater-me na cabeça para ler este livrinho: The Most Human Human, de Brian Christian. Porque tinha muito a ver comigo, falava de literatura e tradução e computação (sim, é possível juntar esses temas num só livro) e por outros motivos que já nem me lembro. Ainda resisti uns bons três minutos, mas lá fiz a encomenda. Recebi o pacote e abri com um sorriso parvo na cara, cheirando o livro como viciado que sou. E comecei a ler. O primeiro capítulo está a deixar-me em parafuso: o autor descreve como participou num Teste de Turing, em que seres humanos e computadores tentam convencer pessoas de que são humanos, conversando com elas à distância. Ora, Brian Christian participou como um dos humanos que tenta convencer outros seres humanos da sua própria humanidade — e se pensarem bem, é fascinante pensar no que deve dizer uma pessoa que está a competir com um computador para provar que é humano. Dizemos o quê? «Olha que eu sou de carne e osso!» O computador também sabe dizer isso: afinal, se um computador quiser mesmo passar por humano, mentir é essencial — e muito humano. Mas, enfim, isto já sou eu a delirar — porque ainda não li o livro e já tenho a mente a mil. O meu irmão tinha razão.

Os portugueses já não sabem português?


Este colunista do i
 teve um Natal infeliz: acreditava que todos deviam pronunciar as palavras como ele (e saber falar de vinhos), mas encontrou um taxista que diz «ròtunda», ouviu um amigo distraído a dizer «vinho muito incorporado», teve mais uns azares desses — e vai daí concluiu que chegámos ao «pico da miséria linguística». Não se fica por aí: conclui, tremendo, que o português, para muitos portugueses, «é já uma língua estrangeira»! Chiça. Ele que escolha um taxista menos dado a pronúncias populares e arranje amigos que percebam de vinho — mas não diga estas enormidades sobre a língua. Reparem: todos estes erros e diferenças de pronúncia existem, é verdade. O problema é essa santa ingenuidade de achar que antigamente não era assim. Ora, desengane-se o colunista: nunca houve um tempo em que os portugueses pronunciassem as palavras da mesma maneira, em que ninguém dissesse palavras mal ouvidas — ou em que aquelas pessoas que escrevem mau português no Facebook fossem portentos da ortografia. Mas, vá, o texto nem acaba mal. O colunista faz um apelo para melhorarmos todos o português — e eu digo que sim e arregaço as mangas, pois há muito a fazer para escrever melhor e falar melhor. Mas acrescento, se me permitem, um outro apelo: também há muito a fazer para pensar melhor sobre a nossa amada língua — sem catastrofismos fáceis e sem criticar a maneira de falar do taxista que nos abriu a porta do carro na passagem de ano.

O homem mais feio da literatura portuguesa

Não é a única razão para ler O Que Fazem Mulheres: também temos um capítulo solto para ser enfiado onde quisermos (salvo seja) e cinco páginas que não são para ler — e lá estão bem fechadas, à espera que algum leitor mais curioso se dê ao trabalho de as destapar. Depois, temos choro e ranho e bacamartes, num romance cómico que brinca sem pudor com os livros que se levam demasiado a sério. Mas, sim, ao acabar de ler o livrinho, o que fica a zoar aos ouvidos é mesmo o génio de Camilo quando descreve, em duas páginas cruéis, um homem de estatura «essencialmente pançuda», pálpebras «túmidas e pilosas como a casca da fava», «bochechas gordurentas», «beiços bicolores», «refegos relaxados», dentes com «uma crusta de cárie» e dois cepos como pernas — estas são apenas algumas das entradas nesse catálogo estupendo da feiura do homem. Rimo-nos e depois paramos de rir, com medo que nos apareça tal figura à nossa frente. E João José Dias nem merecia tal sorte, mas ninguém escolhe o corpo com que nasce. Vá, vão lá conhecer o homem mais feio da literatura nacional. Agradeçam ao Camilo.

Quando Camilo gozou com a escrita de Facebook

Sei que há quem ande pelo mundo convencido que foi o Facebook que estragou o português escrito. Ora, meus caros, não é que a escrita amalucada já existia antes? Na imagem acima podem ver Camilo a gozar com a pontuação hiperbólica do homem mais feio da literatura portuguesa (falo-vos dele entretanto). Cá está um sinal de que sempre houve muita gente que escrevia às três pancadas — mesmo entre os poucos que sabiam escrever. Mas — dizia eu — se não caio nesse pessimismo ingénuo, também tenho as minhas irritações. E uma delas é mesmo esse uso excessivo dos pontos de exclamação. É pá, guardem-nos para as conversas privadas. E para quando são mesmo mesmo mesmo precisos (o que não será todos os dias). Bem, foi por isso que achei por bem dar o nome Ponto & Vírgula a este blogue. É que — se muitos abusam das vírgulas, outros dos pontos, muitos das exclamações e interrogações — quase todos se esquecem do pobre ponto e vírgula. Aliás, serei dos muitos que quase nem usam tal sinal. Enfim: aqui fica a minha homenagem ao casal mais antigo da pontuação portuguesa.

Imagem da página 143 do livro O Que Fazem Mulheres, de Camilo Castelo Branco. Publicado originalmente em 1858. Publicado pela Guerra e Paz em 2016. Fixação do texto e prefácio de Helder Guégués